O que faz parte.
Dia de arrumar gavetas. Elas precisavam de uma ordem mínima
que fosse. Eram documentos antigos, contas já pagas, anotações, mapas de
viagens, tickets de entrada de cinema e outras bobagens. Ele retirava a
papelada e se condenava por guardar tanta coisa inútil. Queria espaço para
novas coisas — talvez tão inúteis quanto as antigas. Limpar gavetas era um rito
de passagem. Mandar o velho embora, reservar lugar para o novo e desconhecido.
Era esperar o porvir.
Separou os sacos de lixo, entrou no escritório, ligou o
aparelho de som (“Kind of Blues”, de Miles Davis), iniciou os trabalhos. Primeira
gaveta, segunda gaveta... Papeis rasgados e ensacados. O trabalho ia se
desenrolando normalmente, até que achou um envelope. Não lembrava do que se
tratava. Contudo, o perfume que dele exalava já lhe dava pistas. Abriu o
envelope... Era uma foto dos dois, tirada numa viagem que fizeram. No
verso, ela somente tinha escrito “Nós”, com um desenho de um coração flechado. Ele voltou ao retrato. Era um flagrante de um
beijo surpresa que ela o dera, ao mesmo tempo que o agarrava pelo pescoço e o
trazia para junto dela. Ele tinha os olhos fechados e um simultâneo sorriso
largo.
A viagem a Havana era uma promessa dos tempos iniciais do
namoro. Ele, mesmo discordando do regime político cubano, tinha grande
curiosidade de conhecer a terra da salsa, dos grandes músicos, das praias paradisíacas.
Ela era companhia perfeita. Apaixonados, passaram dias na jornada de cores e descobertas. Àquela altura, suas lembranças eram todas voltadas aos detalhes. Do hotel, dos pratos, dos carros antigos, dos depoimentos da população sobre
como sobreviver com as restrições incomuns a tantos outros países. Das noites
de brisa e dos dias claros, bem como da alegria que experimentaram juntos. Voltaram
da viagem com planos maiores. Curiosamente, esses planos ficaram velados nas
mentes de cada um. Ele sentia que poderia ser ela a
mulher do resto de seus dias. Ela tinha um sentimento recíproco. Ambos velavam
suas intenções.
Observou por mais algum tempo a foto e notou o cordão que
ela usava. Era um presente que havia lhe dado em seu aniversário. Simples e
belo. Justamente, um coração flechado. Sorriu sem perceber, suspirou. Terminaram
por motivos tão grandes e tão pequenos, de forma confusa. Um fim cheio de
arestas e questões não respondidas. A foto era uma espécie de felicidade
congelada no tempo. Uma síntese de tudo que ambos queriam em suas vidas. O beijo,
o abraço, a surpresa, o sorriso, os olhos fechados, o calor cubano, a dança. A foto,
antes do fundo esquecido de uma gaveta, era adorno da estante. Soberana e
notável a quem entrasse naquele cômodo do apartamento.
Hesitante, guardou a foto novamente no envelope. Movimento que provocou um deslocamento de ar com um rastro do perfume que ela
sempre usava. Respirou fundo, tentando imprimir na mente as últimas lembranças
daquele aroma. Naquele momento havia entendido que na vida existem o que é novo, o que é velho e o que faz parte.
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