Dia de arrumar gavetas. Elas precisavam de uma ordem mínima que fosse. Eram documentos antigos, contas já pagas, anotações, mapas de viagens, tickets de entrada de cinema e outras bobagens. Ele retirava a papelada e se condenava por guardar tanta coisa inútil. Queria espaço para novas coisas — talvez tão inúteis quanto as antigas. Limpar gavetas era um rito de passagem. Mandar o velho embora, reservar lugar para o novo e desconhecido. Era esperar o porvir. Separou os sacos de lixo, entrou no escritório, ligou o aparelho de som (“Kind of Blues”, de Miles Davis), iniciou os trabalhos. Primeira gaveta, segunda gaveta... Papeis rasgados e ensacados. O trabalho ia se desenrolando normalmente, até que achou um envelope. Não lembrava do que se tratava. Contudo, o perfume que dele exalava já lhe dava pistas. Abriu o envelope... Era uma foto dos dois, tirada numa viagem que fizeram. No verso, ela somente tinha escrito “Nós”, com um desenho de um coração flechado. Ele voltou ao retrato...